Caixa-preta revela corte de combustível antes de queda do Air India e morte de 270 pessoas
Por Daniel Pereira, jul 12 2025 6 Comentários

Recuperação da segunda caixa-preta traz respostas e novos questionamentos

Depois de quase um mês de buscas, autoridades indianas finalmente encontraram a segunda caixa-preta do Boeing 787-8 Dreamliner da Air India que caiu em Ahmedabad, em 16 de junho de 2025. Esse equipamento, conhecido como gravador de voz do cockpit, vai ajudar a entender o que realmente aconteceu nos 32 segundos que o avião ficou no ar antes da tragédia que deixou 270 mortos.

O material recolhido agora se junta ao gravador de dados de voo, já recuperado, e começa a traçar um retrato mais detalhado dos últimos momentos do voo. Segundo o relatório preliminar liberado por investigadores indianos em 12 de julho, a queda rápida do avião ficou marcada por um evento assustador: as alavancas de corte de combustível dos dois motores foram acionadas praticamente ao mesmo tempo, logo após a decolagem — tudo em menos de um segundo.

Perguntas sobre o corte de combustível e o papel dos pilotos

Perguntas sobre o corte de combustível e o papel dos pilotos

Um detalhe chamou a atenção de todo mundo que já analisou o relatório: a gravação da cabine captou um piloto questionando o corte de combustível, enquanto o colega teria negado estar envolvido. O diálogo revela uma surpreendente falta de comunicação ou um erro operacional não explicado até agora.

O avião teria acabado de decolar quando, em poucos segundos, perdeu potência em ambos os motores. Surgiu até um chamado de MAYDAY, indicando a emergência que se desenrolava num ritmo frenético. Em meio ao caos, um dos motores chegou a recuperar parte da força, mas muito pouco para evitar o impacto fatal. O outro motor ficou apagado até o momento final.

Para quem se pergunta sobre problemas anteriores, a resposta está nos dados: o motor esquerdo havia sido trocado há menos de três meses, e o direito, pouco mais de um mês antes do desastre. Nenhum dos dois registrava falhas em suas revisões desde 2023, o que reforça a suspeita de que a tragédia não se deu por uma falha técnica clássica.

O relatório fez questão de ressaltar que não há indícios de falha sistêmica na aeronave da Boeing nem nos motores GE instalados. Isso, claro, não elimina a necessidade de investigar profundamente o que pode ter levado ao corte simultâneo de combustível nos dois motores — um evento considerado raríssimo em operações normais.

Especialistas em aviação alertam que ainda é cedo para cravar qualquer explicação. No momento, nem falhas técnicas específicas nem erro humano estão descartados. O que se sabe, por enquanto, é que a cadeia de acontecimentos foi rápida, confusa e fatal.

Este acidente reabre o debate sobre o treinamento de tripulações, a ergonomia dos comandos da cabine e até a cultura de segurança em companhias aéreas que operam grandes frotas. Não há como fugir dessa discussão, especialmente depois de um desastre tão inesperado — e num avião que, até agora, era considerado exemplo de tecnologia confiável.

Enquanto as famílias das vítimas aguardam respostas, a comunidade internacional de aviação segue de olho em cada atualização da investigação. Todo detalhe pode ser crucial para dar sentido ao que, por enquanto, parece apenas um pesadelo inexplicável dos céus indianos.

6 Comentários

Fábio Vieira Neves

Este acidente, embora ainda em investigação, levanta questões fundamentais sobre a ergonomia dos controles de combustível em cabines modernas: por que um sistema tão crítico é acessível com um único movimento? A redundância de segurança não deveria exigir confirmação dupla, ou sequência lógica, antes de cortar o fornecimento de combustível em ambos os motores simultaneamente? A literatura da FAA e da EASA já discute esse risco desde 2018, especialmente em aeronaves com interfaces digitais avançadas. A Boeing, apesar de sua reputação, parece ter priorizado a simplicidade operacional em detrimento da segurança redundante - e isso, em contextos de estresse extremo, pode ser fatal. Ainda não há evidência de falha humana intencional, mas a arquitetura do sistema permitiu que um erro acidental se tornasse uma catástrofe. É inaceitável.

Martha Michelly Galvão Menezes

É impossível não pensar nas famílias que perderam tudo em poucos segundos. Mas, além da emoção, precisamos olhar para o sistema: a aviação brasileira também opera Dreamliners, e a ANAC não tem protocolos claros sobre revisão de cabines após incidentes de similar complexidade. Este não é só um problema da Air India - é um alerta global. Precisamos de auditorias independentes nos comandos de combustível, não apenas em revisões de motores. E, mais importante: treinamento contínuo em simulação de falhas múltiplas, com pressão psicológica realista. Não podemos esperar que o próximo acidente aconteça para agir. A tecnologia é avançada, mas o ser humano ainda é o elo mais frágil - e o mais importante.

Cleber Soares

meu deus, dois motores cortados de uma vez? isso é tipo apertar o botão de desligar o carro enquanto tá na estrada... quem fez isso foi maluco ou tá doido? nem adianta falar de falha técnica se o cara simplesmente apagou o motor. isso aqui é pura burrice, e agora 270 pessoas mortas por um erro de um piloto. não tem desculpa.

Nayane Correa

Cleber, eu entendo sua frustração - mas a gente não pode simplificar demais. Se fosse só burrice, por que o outro piloto negou ter tocado nos controles? E por que o sistema permitiu que isso acontecesse sem bloqueio? Acho que o problema tá no design da cabine, não só na pessoa. E isso é algo que a indústria precisa mudar, não só punir alguém. A gente tá falando de um avião que deveria ser o mais seguro do mundo, e mesmo assim, um erro de um segundo matou 270. Isso é um fracasso de sistema, não só de indivíduo.

Bruna M

Quero acreditar que isso vai gerar mudanças reais. Não só na Air India, mas em todas as companhias que usam aeronaves com interfaces complexas. A gente precisa de menos pressão sobre os pilotos, mais tempo de treinamento em situações de crise, e, acima de tudo, sistemas que não permitam que um único erro desligue tudo de uma vez. A tecnologia existe para proteger, não para facilitar um erro fatal. Se esse acidente fizer com que um único piloto evite uma tragédia futura, então, mesmo com toda a dor, isso terá algum sentido. Não vamos esquecer as vítimas - mas vamos transformar essa dor em segurança para os outros.

Maria Rita Pereira Lemos de Resende

Caixa-preta revela: corte simultâneo de combustível. Sem falha técnica. Sem sinal de sabotagem. Sem erro de manutenção. O que sobra? Interface humana. Design de cabine. Pressão operacional. Treinamento insuficiente em emergências múltiplas. A indústria precisa reavaliar o conceito de ‘intuitivo’ - o que parece simples pode ser letal. Protocolos de redundância devem ser obrigatórios. Não mais opção.

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