Desfile Farroupilha marca o Dia do Gaúcho em Giruá
Giruá amanheceu em ritmo de tradição nesta sexta-feira, 20 de setembro. Às 9h, a Rua Bento Gonçalves virou passarela para cavaleiros, prendas e peões, em um ato que mistura memória, orgulho e identidade. O Desfile Farroupilha reuniu entidades tradicionalistas do município e abriu, de forma oficial, a programação local da Semana Farroupilha.
O cortejo destacou símbolos que contam a história do Rio Grande do Sul: lenços, pilchas, bandeiras e o som das gaitas. Representantes de grupos tradicionalistas desfilaram em ordem, mostrando invernadas artísticas, bandinhas e delegações a cavalo. Foi um momento de celebração coletiva, com a comunidade acompanhando das calçadas, registrando fotos, aplaudindo e prestigiando crianças, jovens e veteranos que mantêm viva a cultura gaúcha.
A chegada da Chama Crioula deu o tom solene. O fogo simbólico — que é repartido anualmente entre municípios gaúchos — reforça a ideia de continuidade, de geração para geração. Em Giruá, a chama marcou a abertura oficial da Semana Farroupilha e serviu de elo entre o passado farroupilha e os compromissos atuais com a preservação das tradições.
O trajeto pela Rua Bento Gonçalves não é aleatório. Além de ser um dos endereços mais conhecidos da cidade, carrega no nome a lembrança de um dos líderes farroupilhas. Esse encontro entre a geografia do município e a história do estado ajuda a explicar por que o desfile, mesmo sendo um ato cívico e cultural, também funciona como uma aula a céu aberto para quem acompanha a passagem das delegações.
Em torno do desfile, o clima foi de encontro entre famílias, colegas de escola e vizinhos. Muitos aproveitaram para circular pelo centro, tomar um chimarrão e rever amigos. Equipes de organização e apoio acompanharam o percurso, com atenção ao trânsito e à passagem dos cavalarianos. O cuidado com os animais e a segurança de quem assiste vem ganhando espaço ano após ano, com orientação sobre hidratação, distâncias entre grupos e espaços adequados para o público.
O desfile também movimenta a cena local. O comércio costuma sentir o impacto positivo do fluxo de pessoas, e escolas aproveitam a data como parte de atividades pedagógicas. Alunos pesquisam a história regional, montam painéis e participam de apresentações, o que ajuda a transformar a Semana Farroupilha em um projeto coletivo que envolve cultura, educação e comunidade.
Por que 20 de setembro importa e o que vem pela frente
O 20 de setembro lembra o início da Revolução Farroupilha, em 1835, quando lideranças regionais se levantaram contra o Império do Brasil. O conflito durou cerca de dez anos, deu origem à República Rio-Grandense e teve figuras como Bento Gonçalves da Silva e Giuseppe Garibaldi. O acordo de paz, firmado em 1845 — conhecido como Tratado de Poncho Verde — encerrou os combates. O resultado prático foi um conjunto de concessões e o fortalecimento de uma identidade regional que se manifesta até hoje.
Essa identidade não é apenas política ou militar. Ela aparece no churrasco, no chimarrão, no vocabulário, na música de gaita e violão, nos rodeios, nos bailes e nas danças. Quando um município como Giruá para para ver o desfile, há um recado simples: tradição não é peça de museu, é rotina de gente que vive, trabalha e se reconhece nesses símbolos.
A Chama Crioula, que hoje percorre o estado, tem origem em um gesto de jovens tradicionalistas que, em 1947, acenderam um fogo em Porto Alegre para manter, durante a Semana Farroupilha, um ponto de união e memória. Desde então, a centelha é distribuída a cidades, piquetes e CTGs, servindo de referência para atividades culturais, cavalgadas e encontros. Em Giruá, sua chegada marca o compasso das próximas atividades.
Ao longo da Semana Farroupilha, a tendência é ver uma programação que mistura apresentações artísticas, fandangos, oficinas para crianças, declamação de poesia, rodas de música e celebrações religiosas, como a Missa Crioula. Cavalgadas e mateadas costumam completar o calendário, com espaços para rodas de conversa e contação de causos. Para quem participa, é um período de convivência e aprendizado — e, para quem vê de fora, uma oportunidade de entender a cultura gaúcha em movimento.
Em termos de educação, professores aproveitam o tema para colocar os alunos em contato com fontes históricas, mapas, documentos e canções. Atividades de interpretação, produção de textos e pesquisas sobre o período farroupilha ajudam a contextualizar símbolos que aparecem no cotidiano, como o hino rio-grandense, o uso do lenço e o respeito à pilcha, reconhecida por lei como traje oficial.
Também pesa o lado econômico e turístico. Cidades que se organizam para a Semana Farroupilha costumam atrair visitantes da região, o que favorece restaurantes, mercados, transporte e serviços. Mesmo em eventos de escala local, como o de Giruá, a circulação maior de pessoas dinamiza o fim de semana e valoriza quem trabalha com gastronomia típica, artesanato, erva-mate e equipamentos para lida de campo.
Outro ponto que vem ganhando espaço é a sustentabilidade. O cuidado com o descarte correto de resíduos, a proteção das áreas de desfile e o bem-estar animal entra na pauta de organizadores e participantes. Iniciativas simples — como disponibilizar água para os cavalos, orientar horários de alimentação e definir áreas específicas para estacionamento de caminhões de apoio — fazem diferença na experiência de quem desfila e de quem assiste.
Para muita gente, o Dia do Gaúcho é uma data de memória familiar. Avós e netos se encontram no mesmo espaço, contam histórias e comparam fotografias de desfiles de décadas passadas com os de hoje. Essa linha do tempo, visível no olhar de quem acompanha da calçada, ajuda a entender por que a tradição resiste: ela não depende só de grandes eventos, mas de rituais simples repetidos com cuidado, ano após ano.
Giruá integra esse mapa afetivo do Rio Grande do Sul. Ao levar o desfile para a rua principal, abrir a Semana Farroupilha com a Chama Crioula e colocar a comunidade no centro da festa, o município cumpre um papel que vai além da comemoração: mantém viva a ponte entre a história da antiga Província de São Pedro e a vida presente. E, quando a música para e as bandeiras se recolhem, fica a certeza de que a cultura segue adiante, pronta para a próxima roda de conversa, o próximo baile ou a próxima cavalgada.
6 Comentários
Que emoção ver a Chama Crioula chegando em Giruá! Meu avô sempre falava que aquele fogo era mais que símbolo - era memória viva. Hoje, vi minha filha de 8 anos segurando um lenço igual ao dele, e eu juro, chorei sem querer.
Tradição não é só vestir a pilcha, é passar o chimarrão com carinho.
A estrutura simbólica do desfile reforça a continuidade hermenêutica da identidade regional, ancorada em práticas performáticas que transcende o meramente folclórico.
A Chama Crioula opera como um nodal de memória coletiva, legitimando a tradição como um vetor de pertencimento.
Seu desfile é bonitinho, mas cadê os verdadeiros gaúchos? Os que montam sem capricho, que bebem chimarrão quente e não só para foto? Tudo virou espetáculo, e o povo que vive isso? Sumiu.
Hoje em dia, até o cavalo tem seguro e o lenço é de algodão importado. O que é isso, irmão?
Essa cena em Giruá é o que a gente precisa mais: gente de verdade, de todos os jeitos, juntos.
Vi criança de 5 anos tentando montar um cavalo e o vovô ajudando, vi um rapaz de tênis e camiseta segurando a bandeira com o peito estufado.
Não precisa ser perfeito. Só precisa estar lá. E isso, isso é o que mantém tudo vivo.
Parabéns a toda a equipe organizadora, foi um evento de extrema importância cultural e social, que demonstra o compromisso com a preservação das nossas raízes históricas.
Os cuidados com os animais e o público foram impecáveis, e a presença da chama crioula foi um momento de grande emoção.
Espero que essa tradição seja mantida por muitas e muitas gerações, com toda a seriedade e respeito que merece.
Se a Chama Crioula fosse um TikTok, já teria 2 milhões de likes.
É só ver: crianças com lenço, avós com lágrima no olho, e o prefeito fazendo discurso de 20 minutos enquanto o cavalo tá com fome.
Tradição? É. Mas se não tiver chimarrão grátis e um bom churrasco, ninguém lembra de onde veio o fogo, só da fila do banheiro.